lágrima é a materialização física do abstrato
extrato concentrado de tristeza saturada
escorre pelos olhos feito tobogã
desliza pelo rosto e despenca
carregando consigo parte dessa saudade
Um blog em ruínas com poemas esquecidos
lágrima é a materialização física do abstrato
extrato concentrado de tristeza saturada
escorre pelos olhos feito tobogã
desliza pelo rosto e despenca
carregando consigo parte dessa saudade
enquanto o mar
se alonga nas areias
os prédios de santos
reclamam em silêncio
de dor no ciático
o mar trouxe de presente
uma concha
mas os prédios
só queriam
um tandrilax
acampado no jardim
o mendigo dorme
passarinhos, borboletas
a manhã parece tranquila
até chegar o calor
sol grita no céu
surgem pessoas
carros
cachorros
crianças
bicicletas
vendedores ambulantes gritam:
"olha o queijo coalho!"
" a sogra morreu ajuda eu!"
disse o vendedor de empadas
sirene, carro de polícia
carrinho de bebê, mosquitos
pombas, frescobol
o calor se intensifica
e o mendigo dorme
imagine um louvre inteiro
só sobre você
com exposições permanentes
e outras itinerantes
no fundo
somos um museu desorganizado
de nós mesmos
no meu caso um acervo
de 41 anos sem curadoria
ramificações me conduzem
por galerias de momentos
abro uma porta
e minha avó
saltitante
está fazendo biscoitos
no outro corredor
meu pai toca piano
a sala treme blues
passei por memórias
de uma viagem para búzios
na mala do paraty
no outro salão
esculturas tortas
pinturas de um amor
inacabado
ruínas de uma infância
de um ego detonado
lembranças engasgadas
de repente o coração acelera
dispara!
pânico!
olho para os lados
em busca de
SAÍDA DE EMERGÊNCIA
todo museu que se preze
tem que ter um fuga
a porta se abre
e um divã
vivi?
minha psicanalista
a minha espera
cinquenta minutos depois
e mais questões surgem
ela encerra com um clichê
"nos vemos na próxima quinta?"
mais calmo ou não
volto para o museu
retorno ao mergulho para dentro de mim
escadas rolantes no museu?
saí do louvre e entrei no pompidou
minha vida virou instalação interativa
google fotos na parede
revelam vídeos, stories,
esse mergulho interno
é a vontade de fazer um boomerang
só de ida
e ver você entrar pela casa
falando mais que o homem do gás
e a noite acabar numa concha
numa realidade aumentada
caleidoscópio
versões simultâneas, múltiplas, invertidas
perspectivas por todo lado
tropeço em lembranças
museu de uma vida inteira
museu de uma vida só
frequentado por um único visitante
um observador de si mesmo
reflete sobre o quão louco
e absurdo é estar aqui.
com essa reflexão vou parar numa lojinha?
tudo é sobre mim?
esses museus sempre acabam em lojas
são souvenirs da minha vida
minha fita k7 preferida, uma réplica do meu walkman
o cobertor azul bolinhas brancas!
uma miniatura da beliche vermelha que eu eu maria dormimos
meus livros de poemas
minhas bermudas hot stuff
Minha coleção de pedras!
lápis com frases, apelidos que só fazem sentido para mim
desenhos? quem vai querer comprar esses desenhos?
quem vai querer comprar essas coisas?
Eu, talvez!
completamente bêbado
nessa minha realidade sóbria
tão sóbria que é um porre
porre de alegria
de vinho, cachaça, cerveja,
celular, camisinha, porre de transa
embriagado nessa conversa
embarco no delírio coletivo existencial
onde queimo neurônios, bagulhos, empadões, tabacos,
queimo o filme
mergulho numa deliciosa larica
e de repente
me vejo passando brigadeiro
numa torrada bauducco
adormecer é uma onda
que me leva para longe
um infinito de possibilidades
de cores, sons e cheiros
já o despertar
é entender
que a realidade
é uma viagem
louca, múltipla
e simultânea.
uma realidade de horários
onde o tempo passa
e eu cambaleando
tento acompanhar
as urgências
olhando para o céu escuro
uma tontura súbita me invade
o dia passou. não percebi
estou completamente embriagado nas responsabilidades
embriagado no amor
na saudade, na dor
na presença do passado
e na projeção do futuro
o presente balança, tropeça
se desequilibra
mas não cai
abro um vinho
coloco uma música
e a viagem prossegue aqui
numa onda sonora
que acessa sentimentos
trancados numa gaveta.
o bêbado dentro de mim
vira desenho animado
dança,
fala alto, abraça.
é inconveniente
não quer ir embora
de mim mesmo.
os olhos se abrem
tudo gira
cabeça grita
ressaca real
aspirina
água
porre de dipirona
porre de cafeína, porre de açúcar
as dosagens se misturam
num grande coquetel
o desconforto passa
e uma onda enorme
me pega desprevenido
caixote!
levanto
todo sujo
água, sal, sol, areia
Completamente chapado de maresia.
é tanto trocadilho
que me vem um enjoo
não poderia ser diferente
encerro esse poema
vomitando palavras ambíguas.